Se estás a ler isto, provavelmente já sentiste na pele o peso de desconfiar de quem está à tua volta. Talvez tenhas sido magoada antes, ou tenhas aprendido, ainda pequena, que confiar era arriscado. A dificuldade em confiar não é um defeito teu. É uma resposta que o teu corpo e a tua mente criaram para te proteger. Mas, se essa proteção já não te serve, há passos concretos que podes dar para, aos poucos, voltares a sentir segurança nas relações.
O que está por trás da dificuldade em confiar
A dificuldade em confiar raramente aparece sozinha. Muitas vezes vem acompanhada de ansiedade, hipervigilância e uma sensação constante de que algo vai correr mal. Do ponto de vista da terapia somática e integrativa, a desconfiança não é só um pensamento. É uma sensação no corpo. Pode ser um aperto no peito, um nó no estômago ou os ombros tensos sempre que alguém se aproxima.
Como o corpo guarda a memória da quebra de confiança

Quando foste magoada, o teu sistema nervoso registou esse evento como uma ameaça. Desde então, ele mantém-se em estado de alerta para evitar que a mesma dor se repita. Isso é normal e até inteligente da parte do teu corpo. O problema é que, com o tempo, esse alarme dispara mesmo em situações seguras, impedindo-te de criar laços profundos.
A diferença entre desconfiança saudável e desconfiança paralisante
Uma dose de cautela é saudável. Ajuda-te a avaliar pessoas e contextos. Mas quando a desconfiança te impede de te abrires, de pedires ajuda ou de acreditares em elogios, ela está a limitar a tua vida. A chave está em distinguir entre um sinal real de perigo e um eco do passado.
Passos práticos para reconstruir a confiança aos poucos
Reconstruir a confiança não acontece da noite para o dia. É um processo gradual, que se faz com pequenas escolhas diárias. Aqui ficam alguns passos que podes começar a dar hoje.
1. Reconhece os teus padrões de desconfiança
Pára um momento e pergunta-te: em que situações a desconfiança aparece mais? É com parceiros românticos, amigos, colegas de trabalho? Que pensamentos vêm à tua mente? “Vai acabar por me magoar”, “Não posso mostrar vulnerabilidade”, “Se confiar, vou perder o controlo”? Escreve esses pensamentos. Ao nomeá-los, eles perdem parte do poder que têm sobre ti.
2. Começa com pequenos riscos calculados
Confiança constrói-se com experiências positivas repetidas. Não precisas de te abrir completamente de uma vez. Escolhe uma pessoa em quem aches que podes confiar um pouco mais. Partilha algo pequeno, como um sentimento ou uma dificuldade do teu dia, e observa como ela reage. Se a resposta for acolhedora, o teu cérebro começa a registar que confiar pode ser seguro.
3. Aprende a regular o teu sistema nervoso
Quando a desconfiança ataca, o teu corpo está em modo de defesa. Antes de tentares racionalizar, ajuda o teu corpo a acalmar-se. Respira fundo, senta-te com os pés no chão, coloca a mão no peito ou no ventre. Diz a ti mesma: “Neste momento, estou segura. Posso sentir o que sinto sem agir.” A regulação somática é a base para conseguires avaliar a situação com clareza.
4. Diferencia o passado do presente

Muitas vezes, a desconfiança que sentes hoje não é sobre a pessoa à tua frente, mas sobre alguém que te magoou antes. Pergunta-te: “O que esta pessoa fez concretamente para eu desconfiar dela? Ou estou a projetar uma ferida antiga?” Separar o passado do presente ajuda-te a ver a realidade com mais nitidez.
Erros comuns ao tentar confiar de novo
Quando decides trabalhar a confiança, é fácil cair em armadilhas que atrasam o processo. Conhecê-las ajuda-te a evitá-las.
Forçar a confiança antes de estares pronta
Confiança não se impõe. Se te obrigas a confiar antes de te sentires segura, o teu corpo vai reagir com ainda mais ansiedade. Respeita o teu ritmo. Não há pressa.
Confiar cegamente para compensar a desconfiança
Algumas pessoas, ao perceberem que desconfiam demais, saltam para o extremo oposto e confiam em toda a gente sem critério. Isso também é perigoso. O equilíbrio está em confiar com discernimento, não com ingenuidade.
Ignorar os sinais do corpo
O teu corpo é um guia valioso. Se sentes um desconforto físico ao lado de alguém, não ignores. Pode ser um sinal de que algo não está bem. Mas também pode ser um gatilho do passado. Aprende a distinguir com a prática e, se possível, com o apoio de um profissional.
Como manter a segurança enquanto exploras a confiança
Trabalhar a confiança mexe com feridas profundas. É importante que te sintas segura durante o processo.
Cria uma rede de apoio

Não precisas de fazer isto sozinha. Ter uma ou duas pessoas de confiança com quem possas falar abertamente sobre as tuas dificuldades faz toda a diferença. Se sentires que não tens ninguém, considera procurar um psicólogo. A terapia é um espaço seguro para explorares estas questões.
Estabelece limites claros
Confiar não significa abdicar dos teus limites. Podes confiar em alguém e, ao mesmo tempo, dizer “não”, “preciso de tempo” ou “isso magoou-me”. Limites saudáveis são a base de qualquer relação de confiança.
Dá-te permissão para falhar
Vai haver dias em que a desconfiança volta com força. Isso não significa que estejas a regredir. Faz parte do processo. Quando isso acontecer, acolhe-te com compaixão, sem julgamento. Diz a ti mesma: “Hoje estou a sentir-me insegura, e tudo bem. Amanhã posso tentar de novo.”
Quando procurar ajuda profissional
Se a dificuldade em confiar está a afetar a tua qualidade de vida, os teus relacionamentos ou a tua saúde mental, vale a pena considerar acompanhamento terapêutico. A terapia integrativa, que combina abordagem somática, terapia de esquemas e trauma, pode ajudar-te a compreender a origem da desconfiança e a criar novas formas de te relacionares. Não precisas de esperar até estar no fundo do poço para pedir ajuda.
Nota de segurança: Se estás a passar por uma crise intensa, com pensamentos de automutilação ou suicídio, liga para o SNS 24 (808 24 24 24) ou dirige-te ao serviço de urgência mais próximo. Não estás sozinha.
Reconstruir a confiança é um caminho possível. Com pequenos passos, com paciência e com o apoio certo, podes voltar a sentir-te segura nas tuas relações. Se sentes que está na hora de dares o próximo passo, fala comigo no WhatsApp. Estou aqui para te ouvir.
